Índice
O país registrou quase 75 mil casos de estupros e de estupros de vulneráveis no ano passado, ou seja, cerca de 8 a 9 casos por hora
Justiça manda apreender menor investigado em caso de estupro coletivo no Rio
Uma
Uma sequência de crimes brutais contra mulheres mobiliza as polícias em diferentes partes do país e reacende o debate sobre a violência sexual no Brasil. Os casos vieram à tona nas vésperas da semana do Dia Internacional da Mulher, celebrado nesse domingo (8), e expõem como o caminho para combater esse tipo de crime ainda é longo e cheio de desafios.
De acordo com o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2025, os dados consolidados mais recentes referem-se ao ano de 2024, mostram que o Brasil registrou um total de 74.810 estupros e estupros de vulnerável contra vítimas do sexo feminino (mulheres e meninas). Isso significa 205 casos por dia e cerca de 8 a 9 casos por hora.
Leia também:
Prefeito de 65 anos se casa com adolescente de 16 anos: o que diz a lei?” rel=”noopener”>Prefeito de 65 anos se casa com adolescente de 16 anos: o que diz a lei? Em dois anos, 582 meninas de 10 a 14 anos deram à luz em Minas; estado fez 26 abortos legais” rel=”noopener”>Em dois anos, 582 meninas de 10 a 14 anos deram à luz em Minas; estado fez 26 abortos legais Menina indígena de 12 anos que morreu durante parto é enterrada em Betim ” rel=”noopener”>Menina indígena de 12 anos que morreu durante parto é enterrada em Betim
A principal pergunta é: por quê e o que esses casos denunciam sobre a nossa sociedade? A resposta é complexa e, diferente do que muitos pensam, não tem relação com instinto masculino ou desejo, mas com poder social, como psicóloga especialista em psicologia forense Sabrina de Marhi
“A violência sexual é uma ferramenta de opressão cada vez mais naturalizada e normalizada social, cultural e institucionalmente que sobrevive não somente devido ao pacto da masculinidade, mas também ao poder social de dominação e controle que esse repertório ajuda a elevar e favorecer na classe masculina”, explicou Marhi. Ou seja, o ato também funciona como uma forma de manter a desigualdade e o poder masculino na sociedade.
Da infância à velhice: mulheres em risco
Os casos chamaram atenção por envolverem mulheres de idades tão distintas e em contextos diferentes — seja uma menina de 12 anos ou uma idosa de 82 anos. Segundo a especialista, isso revela algo fundamental: a violência sexual não está ligada ao comportamento, à aparência ou à idade da vítima.
Quando vemos crianças, adolescentes, mulheres adultas, idosas e até mulheres em contextos religiosos sendo vítimas, fica evidente que não existe um “perfil” que explique a violência. Essa diversidade desmonta muitos mitos sociais que culpabilizam as vítimas, como a ideia de que roupas, comportamentos ou estilo de vida provocariam o crime
psicóloga especialista em psicologia forense, Sabrina de Marhi
Isso quer dizer qur todas estão expostas as violencia, contudo, cerca de 56,5% das vítimas de violência sexual em 2025 no Brasil eram crianças e adolescentes, de 0 a 17 anos, segundo dados da pesquisa “Elas Vivem: a urgência da vida”, da Rede de Observatórios da Segurança.
Onde está o perigo?
Casos com desconhecidos chamam atenção, mas a psicologia aponta que estupradores nem sempre correspondem ao estereótipo do agressor estranho que ataca na rua. A violência sexual é mais complexa.
“Na maioria das vezes são pessoas que convivem com você, te observam, conhecem seus trejeitos, vulnerabilidades e, assim, tentam ganhar confiança de alguma forma. Podem ser pais, tios, namorados, amigos, ou amigos dos pais ou dos namorados, como no caso de estupro coletivo que ocorreu em Copacabana, no qual a vítima foi atraída por um suposto ex namorado e o abusador chamou seus amigos para violar ela coletivamente”, disse.
Relações próximas criam confiança e podem deixar a vítima mais vulnerável. “Quando o agressor é alguém conhecido, existe frequentemente uma dinâmica de manipulação, coerção emocional ou abuso de autoridade, o que dificulta que a vítima reconheça imediatamente a violência ou que consiga denunciá-la. O medo de não ser acreditada, de romper vínculos familiares ou sociais e de sofrer retaliações também contribui para o silêncio. Portanto, a proximidade não é um acaso, ela muitas vezes é parte da própria estratégia de perpetuação da violência”. disse.
Por que abusadores não são ‘monstros’
Ainda de acordo com a especialista, a sociedade costuma chamar abusadores de “monstros”. Esse rótulo pode atrapalhar a compreensão do problema:
Entendo que muitas pessoas optam por identificá-los como pessoas incomuns por não quererem perceber que muitos ao seu redor poderiam cometer um estupro, ou talvez já tenham cometido. No entanto, os efeitos disso na cultura e sociedade apenas tornam o problema cada vez desafiador para as vítimas, porque ausenta homens da responsabilidade de reduzir potenciais comportamentos violentos e potencializa a culpabilização das vítimas
a psicóloga especialista em psicologia forense, Sabrina de Marhi
O pacto dos homens
Ainda de acordo com reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, nesse domingo (8),
“Em muitos casos, há processos de validação entre os agressores, nos quais a presença dos outros reduz a percepção de responsabilidade individual e transforma o ato em uma espécie de demonstração de poder ou pertencimento ao grupo”, disse.
Esse tipo de crime também pode estar ligado a uma educação masculina que valoriza a dominação e a ideia de provar virilidade, muitas vezes desrespeitando e desumanizando as mulheres.
“Quando a violência é cometida em grupo, ela pode funcionar como uma forma extrema de performance de masculinidade, onde a agressão sexual se torna um meio de provar status, coragem ou superioridade dentro do grupo. Isso evidencia que o problema não está apenas em indivíduos isolados, mas também em modelos culturais de masculinidade que naturalizam a violência e a objetificação feminina”, disse.
Punições extremas em debate
Em meio as revoltas, discussõesos sobre possiveis soluções. Entre elas, com frequencia aprece castração quimica para estupradores. Mas a psicologa enfatiza:
‘’A ideia da castração química costuma surgir como uma resposta emocional diante da gravidade desses crimes. No entanto, do ponto de vista científico e social, ela apresenta várias limitações.’’
Primeiro, conforme ela mesma disse acima, a violência sexual não é motivada por impulso sexual, mas frequentemente por poder, controle, humilhação e dominação. “Reduzir a testosterona de um agressor não necessariamente elimina essas dinâmicas”, disse.
De acordo com a especialista, punir apenas o agressor não resolve o problema. Isso não muda as causas da violência, como a tolerância ao abuso, a culpa colocada nas vítimas e a desigualdade entre homens e mulheres.
Medidas isoladas como essa também podem criar a ilusão de que o problema foi resolvido, quando na realidade a prevenção exige educação sobre consentimento, responsabilização efetiva dos agressores, fortalecimento das redes de proteção às vítimas e mudanças culturais mais profundas. Ademais, homens não estupram apenas com a genitália, mas também com objetos e ferramentas. Portanto, a discussão sobre punição é importante, mas ela precisa vir acompanhada de políticas estruturais de prevenção e transformação social
a psicóloga especialista em psicologia forense, Sabrina de Marhi
Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.




